CF 2026: Fraternidade e Moradia: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)
A Campanha da Fraternidade de 2026 convida toda a Igreja e, de modo particular, a Família Dominicana, a refletir sobre o tema “Fraternidade e Moradia” como expressão concreta da fé cristã e do compromisso com a justiça social. Falar de moradia é falar de dignidade, de cuidado com a vida e do direito fundamental de toda pessoa a ter um lugar onde possa viver com segurança, proteção e esperança.
A moradia vai além de uma estrutura física. Ela é espaço de pertencimento, de convivência, de descanso e de construção de vida digna. É na casa que se fortalecem os vínculos familiares, se protegem os mais vulneráveis e se cria a base para o acesso a outros direitos, como saúde, educação e trabalho. Por isso, a ausência de moradia digna representa uma grave ferida social e um desafio ético que interpela nossa fé.
A realidade brasileira torna esse apelo ainda mais urgente. Dados do IPEA (Instituto de Pesquisa econômica aplicada) revelam que:
- Cerca de 16,4 milhões de brasileiros vivem em favelas ou comunidades urbanas informais, ou seja, em espaços com infraestrutura deficitária ou irregularidade fundiária, segundo dados do Censo 2022 do IBGE.
- O déficit habitacional — que representa a diferença entre as moradias necessárias e as existentes em condições adequadas — está estimado em aproximadamente 6 milhões de domicílios no país com base nos dados mais recentes da Fundação João Pinheiro (FJP) para 2022 e 2025.
- Esse déficit representa cerca de 8,3% do total de moradias ocupadas no Brasil, sinalizando que milhões de famílias ainda não têm acesso a uma casa adequada.
Comparando as duas dimensões
16,4 milhões de pessoas em assentamentos/favelas indicam um quadro amplo de moradia precária, que vai além do déficit formal de unidades habitacionais e inclui condições inadequadas de habitação e infraestrutura.
Já os cerca de 6 milhões de domicílios em déficit revelam, por outro lado, quantas unidades ainda são tecnicamente necessárias para atender as famílias que não ocupam habitação digna.
Os números mostram que o problema da moradia no Brasil é duplo: há um expressivo déficit de unidades adequadas e, simultaneamente, muitas pessoas que já vivem em ocupações ou favelas com condições precárias de infraestrutura e serviços essenciais — o que reforça a urgência de políticas públicas que vão além da construção de casas, incluindo melhoria de condições habitacionais e regularização fundiária.
Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG) indicam que, no início de 2025, mais de 335 mil pessoas viviam em situação de rua no Brasil, com forte concentração nos grandes centros urbanos. Esse número revela não apenas o aumento da pobreza e da vulnerabilidade, mas também a insuficiência de políticas públicas eficazes que garantam o direito à moradia como direito humano fundamental.
À luz da fé cristã, essa realidade não pode ser ignorada. Não podemos ficar indiferentes, pois a indiferença é sinal de cumplicidade. O Evangelho nos revela um Deus que não permanece distante do sofrimento humano, mas escolhe habitar entre nós. Como afirma o evangelista João: “E o Verbo se fez carne e armou a sua tenda entre nós.” (Jo 1,14)
Deus não apenas visita a humanidade, mas a escolhe como lugar de sua habitação para sinalizar a dignidade da moradia/casa/lugar onde se habita. Ao entrar na história, assume a condição humana e se compromete com a realidade concreta da vida, com suas fragilidades e esperanças. No Mistério da encarnação, Jesus nasce na simplicidade, percorre caminhos como peregrino e faz das casas e das mesas partilhadas espaços privilegiados do anúncio do Reino. Desse modo, a moradia adquire um sentido teológico profundo: torna-se sinal da presença de Deus que acolhe, gera comunhão e oferece vida plena e segura a todos. Moradia, jamais pode ser mercadoria!
Como Irmãs Dominicanas de Monteils, somos chamadas a contemplar essa realidade à luz do nosso carisma. Fiéis à Palavra e atentas aos sinais dos tempos, reconhecemos que a fraternidade cristã exige mais do que solidariedade pontual. Ela pede compromisso com a transformação das estruturas que produzem exclusão e negam dignidade a tantos irmãos e irmãs. São Domingos nos recorda que a verdade do Evangelho deve ser anunciada com a vida, pois “não se pode falar de Deus sem se deixar tocar pela dor do mundo”.
A Campanha da Fraternidade 2026 nos convida, portanto, à conversão do olhar e das práticas. Defender a moradia digna é assumir uma postura profética, que denuncia a lógica do lucro acima da vida e anuncia uma sociedade baseada na justiça, na partilha e no cuidado com a casa comum. É reconhecer que ninguém pode viver plenamente enquanto outros são privados do mínimo necessário.
Chamado à ação
À luz da Campanha da Fraternidade 2026, somos convocadas a transformar reflexão em compromisso concreto. Como Comunidade anastasiana-dominicana, somos chamadas a escutar o clamor dos que não têm moradia e dos que vivem em moradias precárias, em ocupações; fortalecer iniciativas de acolhida e incidência social; apoiar políticas públicas que garantam o direito à moradia digna e colaborar, em rede, com pastorais e movimentos que defendem a vida das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Somos chamadas também a fazer com que nossas comunidades sejam casas abertas, espaços de escuta, partilha e anúncio profético do Reino, onde ninguém se sinta sem lugar.
Que este tempo de reflexão fortaleça nosso compromisso com os pobres, com os que vivem em situação de rua, com os que vivem nas ocupações, ameaçados de despejo e com todos aqueles cuja dignidade é ameaçada. Ao lutar pelo direito à moradia, reafirmamos nossa missão de servir à vida e anunciar o Reino de Deus, onde cada pessoa tem lugar, casa para viver com dignidade.
Irmã Sandra Camilo Ede é Dominicana de Monteils, graduada em Serviço Social, especialista em Direitos Humanos, integrante da Rede ‘Um Grito Pela Vida’ e do Coletivo de Mulheres da Região Noroeste.